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Iº Fórum Presencial - PSICOLOGIA-NOVAS TECNOLOGIAS

 
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Registrado: Segunda-Feira, 11 de Dezembro de 2006
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MensagemEnviada: Seg Jun 15, 2009 11:43    Assunto: Iº Fórum Presencial - PSICOLOGIA-NOVAS TECNOLOGIAS Responder com Citação

Iº Fórum Junguiano Presencial

Tema: NOVAS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO, SUAS APLICAÇÕES E DESAFIOS PARA A PSICOLOGIA.

Convidada: Rosa Farah* com o papel de fazer uma provocação inicial, seguida de debate com os convidados.


Mediadora: Célia Brandão**


*Rosa Farah - CRP 06 1315
1. Coordenadora do NPPI – Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática - www.pucsp.br/nppi
2. Professora de “Psicologia e Informática – A subjetividade atravessada pelas novas tecnologias” – na Faculdade de Psicologia da PUC-SP.
Principais publicações na área:
- Psicologia e Informática – O ser humano diante das novas tecnologias (org.); São Paulo, Oficina do Livro: 2004.
- Relacionamentos na era digital (org.); São Paulo, Giz: 2007.
- Pesquisa em andamento: “Uma análise do fenômeno Internet segundo a abordagem da Psicologia Analítica” (título provisório)

** Célia Brandão - CRP 06 1865 - Membro da SBPA/SP, Membro do Corpo de supervisores, da Comissão de ensino do curso de formação de analistas da SBPA/SP e Membro do Conselho de ética da SBPA. Interesse especial em debater com colegas da área de psicologia e de tecnologia sobre a crescente digitalização de processos e sua influência no comportamento humano.


Texto editado para publicação

[Célia] Temos a honra de receber Rosa Farah. Nós, do Fórum Junguiano, estamos muito contentes com este I Fórum Presencial, em comemoração a um ano de seu lançamento. Há três anos nos reunimos na casa do Arnaldo Motta, o criador da idéia, com o intento de abrir um espaço de intercâmbio que pudesse reunir a comunidade junguiana e promover debates sobre temas de relevância dentro da nossa matéria. A troca seria via internet. Porém, ao longo deste ano, observamos que muitas pessoas não têm tanta intimidade com a ferramenta, ou ficam tímidas diante da tecnologia. Decidimos, então, convocar este fórum presencial como oportunidade para refletirmos sobre o assunto. Ao lado dos fóruns via internet, o fórum presencial também é uma atividade do Fórum Junguiano. Nortearam-nos principalmente estas questões: “Como as pessoas participam do fórum via internet”? “Como nós nos relacionamos com a tecnologia”? Rosa é coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia e Informática, NPPI, professora de Psicologia e Informática: A Subjetividade Atravessada pelas Novas Tecnologias, na faculdade de Psicologia da PUC de São Paulo. Principais publicações na área: Relacionamentos na Era Digital, que organiza uma série de artigos de alunos; Psicologia e Informática: o ser humano diante das novas tecnologias. Nesses livros encontram-se temas como “Exposição e Anonimato na Internet”, “Sexo Virtual”, “Second Life”, “Orkut”, além de outros relativos à psicologia em sua relação com a informática. Como pode a Psicologia contribuir com a tecnologia e como pode a tecnologia contribuir com a Psicologia, sem preconceitos? A idéia deste fórum é construirmos um texto coletivo, a ser publicado em nosso site. Rosa vai falar por meia hora, quarenta minutos. Ela trouxe algumas provocações. Vamos levantar algumas questões e, depois, decidiremos qual será o nosso modo de trabalho, conforme a motivação de vocês. Seja bem-vinda, Rosa!

[Rosa] Quero, em primeiro lugar, agradecer pelo convite e pela oportunidade de trocar figurinhas com algumas pessoas. Lá na PUC, meu grupo e eu ainda somos considerados um tanto esquisitos por termos interesses e questões nessas áreas. E, como somos totalmente parciais para avaliar, além de acharmos tudo isso muito importante, precisamos acordar para esses assuntos e pegar o barco que já estamos perdendo há algum tempo – os psicólogos, de modo geral, e os junguianos, de modo especial. É um prazer encontrar com quem dialogar. A vontade é de abordar uma série de assuntos, mas procurei trazer algumas provocações, na tentativa de nos estimular a pensar e a perceber a amplitude de assuntos de que deveremos cuidar, se resolvermos assumir este tema como algo a ser levado a sério, e não como uma esquisitice ou bizarrice, como acreditam alguns.

Vou usar algumas transparências. Vocês vão perceber que, propositalmente, preferi não aprofundar tema nenhum, porque não seria viável, ainda que considere todos muito importantes. Muito rapidamente, a primeira provocação é uma tentativa de ilustrar visualmente a velocidade da evolução dessa coisa que chamamos de tecnologia. Isso aqui é uma pitadinha de um processo que vem ocorrendo há oitenta e poucos anos. Aquelas duas primeiras figuras são fotografias dos primeiros computadores, do início da década de quarenta. Ocupavam uma sala imensa! Aqueles aparelhinhos ocupavam salas inteiras, consumiam quilômetros de fios, centenas ou milhares de válvulas; não podiam ser desligados, porque tinham de ficar ligados continuamente, sob determinada temperatura, com várias pessoas cuidando do funcionamento. Eles só serviam para fazer cálculos, mais nada. A grande façanha é que eles faziam cálculos imensos em 4 ou 5 segundos. Uma curiosidade: várias mulheres tiveram papel importante; uma das fotos registra isso; uma delas teve um papel importante num desenvolvimento teórico que, bem depois, veio a desembocar na tecnologia do e-mail. Partindo daqueles aparelhos, chegamos aos primeiros computadores pessoais, no início da década de 90. Além de cálculos, o uso mais popular desse tipo de aparelho era para games, ou jogos. Não eram ainda jogos on-line, porque o computador ainda não era interativo. Se dermos um salto bem grande no tempo, vamos chegar aos smartphones que estão por aí, que fazem tudo aquilo e muito mais, porque são interativos: acessam e-mails, acessam a internet, fazem maravilhas. É uma tecnologia nova – ainda estou intrigada e acho que pode ser uma brincadeira da internet, mas chega como verdadeira –, um tipo de computador em que tanto o teclado quanto a tela são virtuais. São projeções. Os componentes, a parte de hardware, são canetinhas que você monta. O resto é tudo virtual, tudo projeção. Enfim, uma amostra de como essa coisa está se transformando.

Desde a origem dos primeiros computadores até aquilo que hoje se chama de Web 3, percorreu-se um caminho que pode parecer longo, mas, historicamente, ele é muito breve. Basta considerarmos que, no início dos anos 90, os computadores ainda não eram interativos. Uma historinha conhecida, mas talvez não por todos: há grande desenvolvimento dos primeiros computadores, com os quais se faziam registros de grandes bancos de dados, inclusive de interesse para a segurança nacional, principalmente nos Estados Unidos. Era também a época da guerra fria, então temia-se que houvesse um ataque, que poderia destruir os bancos de dados. Para contornar o problema, desenvolveu-se nos Estados Unidos a tecnologia das redes, das interações entre os computadores, justamente os que envolviam registros de segurança. Foi o que deu origem à tecnologia necessária para a construção da internet. Até então, os usuários de computador pessoal usavam a máquina para cálculos e coisas muito específicas. Pois bem, começou a haver uma febre entre os estudantes das universidades que desenvolviam essa tecnologia. Com isso, vocês percebem o cruzamento de situações e contextos.

No Brasil, em março de 2008, havia mais de 40 milhões de usuários de internet. É difícil obter-se o dado exato. Pessoas que têm o computador em casa somam aproximadamente 20 milhões, mas a moçada, principalmente, encontra “n” outras formas de acesso: no trabalho, nas escolas, em lan-houses. Uma das moças de meu grupo passou um dia e uma noite em uma lan-house para ver o que acontecia ali. Ela conta que, lá pelas tantas, apareciam molequinhos bem carentes, de sandalhinhas havaianas, sujinhos, vendedores de vassouras na região. Eles entravam com o seu dinheirinho, pagavam pelas horas de uso, geralmente com jogo on-line, e iam embora. Quando a gente estava em Lisboa, fazendo um workshop, chegou uma jornalista de Pernambuco. Ela estava assustada. Preparava uma matéria sobre tecnologia e foi fazer entrevistas no sertão de Pernambuco. Ficara impressionada e incomodada, achando um absurdo que crianças carentes daquela região, no interior de Pernambuco, que vendiam verdurinhas de porta em porta, pegavam aquele dinheirinho suado e iam gastá-lo na lan-house, no sertão de Pernambuco. Fala-se em exclusão digital. É um problema? Claro que é. Mas as soluções que as pessoas encontram para se incluir são muito curiosas. Não sei se podemos chamar isso de inclusão. O que se sabe é que vão atrás daquilo que é do interesse delas.

Em outras áreas do conhecimento, observam-se muitos estudos sobre o que genericamente podemos chamar de cyber-cultura, abrangendo o interesse pela tecnologia nas mais variadas expressões, desde o lazer, como é o caso dos adolescentes e, cada vez mais, das crianças, e outras “n” aplicações, sejam culturais, sociais, de controle, ou de desenvolvimento de conhecimento. Mas esse interesse por conhecer, entender e pesquisar sobre esses temas parece estar muito mais desenvolvido em outras áreas, como a Filosofia, a Sociologia, a Semiótica. A meu ver, a Psicologia ainda está engatinhando. As primeiras modalidades de uso que começaram a chamar a atenção dos psicólogos foram justamente os usos para games, quando eles começaram a se tornar problemáticos, ou seja, quando os usuários se tornaram compulsivos. Um pouco apressadamente, isso foi chamado de “vício”, o que merece uma discussão à parte. Focalizaram-se usos que, de alguma forma, causam prejuízo para a vida pessoal, para a vida social, para a vida familiar, para a saúde física. Há vários níveis. De vez em quando aparece algum caso dramático na mídia. Vocês devem ter ouvido falar de rapazes asiáticos que acabaram morrendo diante do computador. Eles ficaram 24, 36 horas ininterruptamente num game. É um fato, mas isso não quer dizer que toda forma de uso de games seja perigosa, lesiva.

Já faz bastante tempo, por exemplo, que o treinamento de pilotos, de astronautas e outros são realizados através de games. A tecnologia do game é a mesma dos programas de treinamento. Guarda muita semelhança também com muita coisa que se usa em educação. Agora, ao adotarmos essa visão patologizante do game, começaremos a olhar com preconceito para qualquer coisa que faça lembrar um game.

Até aqui, então, o principal foco da Psicologia tem sido os usos patológicos ou excêntricos, que podem resultar em prejuízos. O uso por pedófilos, o uso por hackers, sempre com o sentido de prejudicar alguém, lesar, invadir. Tudo isso existe. A web foi criada pelo ser humano. E tudo que é humano está lá. Mas o que se destaca na mídia é isso. Parece-me ainda que, infelizmente, o que se destaca para nós (os psicólogos) também é isso. Que coisa perigosa!

Pelo pouco que conseguimos observar em nosso grupo, entretanto, existem várias outras possibilidades para a Psicologia, ainda pouco exploradas por nós. Uma delas é o oferecimento de serviços psicológicos informatizados, outra grande polêmica, cheia de discussões legítimas, mas também com alguns preconceitos. Há grande necessidade de desenvolvermos estudos destinados a compreender melhor o fenômeno da virtualidade e de suas implicações para nossa vida. Uma das necessidades centrais seria tentarmos entender melhor o que é o virtual. Existe um autor do qual eu gosto muito, Pierre Levy, certamente não o único, que trabalha muito com esse tema. Ele é tido como um dos otimistas. Vocês entenderão melhor o que eu quero dizer quando eu retornar ao assunto.

Vou contar brevemente sobre os serviços prestados por esse grupo da PUC. Começamos nosso trabalho em meados de 95, quando a internet estava chegando ao Brasil. Na época, o acesso à internet era feito basicamente dentro das universidades. Ainda não existia acesso aberto, a não ser através das chamadas “BBSs”, que eram semelhantes a associações ou clubes, que propiciavam esse tipo de acesso a grupos específicos. Por exemplo, existia a BBS dos advogados, dos médicos, e até mesmo ou uma BBS de Psicologia, que teve vida curta. Chamava-se Psicnet. Na época, eu, da área junguiana, e o professor Lourival de Campos Moura, da área de psicanálise e família, resolvemos propor para a chefia da clínica a criação de um boletim virtual. O professor Efraim estava criando o boletim da clínica. Era uma revista impressa. Tínhamos começado a ouvir falar em possibilidades de comunicação virtual. “Que tal a gente criar um boletim clínico virtual?” Bolar a idéia, articular o que fosse necessário, tentar achar os canais para pô-la em prática, tudo isso era complicado. Ninguém entendia muito bem o que estávamos querendo propor. Enquanto pensávamos em tudo isso, descobrimos que talvez fosse mais interessante propormos uma home-page da clínica. Essa home-page foi ao ar por cortesia da Psicnet, que era essa mesma BBS de Psicologia criada por uma ex-aluna e pelo namorado dela, que trabalhavam com tecnologia. Na ocasião, não pensávamos em serviços informatizados. Tudo que queríamos era criar uma home-page para facilitar o contato entre a clínica e a comunidade, apresentar os canais, facilitar o acesso, quem sabe promover contato entre profissionais. Era essa a idéia. Só que isso foi se desdobrando. Num primeiro momento, não havia e-mail. Era um virtual “de mão única”. O pessoal podia olhar a página, mas tinha de telefonar. Quando a home-page finalmente foi ao ar e finalmente teve um e-mail, começamos a receber as primeiras mensagens de pessoas comuns, que pediam ajuda psicológica. No começo, ficamos um tanto paranóicos. Já havia todo um buchicho sobre o que se podia e o que não se podia fazer via internet. Nos perguntávamos “Será que estão nos testando?” As mensagens eram tão impactantes! As pessoas se expunham para desconhecidos. A clínica da PUC se chama “Clínica Psicológica Dra. Ana Maria Poppovic. As mensagens começavam assim: “Prezada Dra. Ana”. Seguia-se um relato aflito de alguém pedindo ajuda.

[Roseli] E a pessoa se identificava?

[Rosa] Não necessariamente. À vezes, sim; às vezes, não. Isso também é um detalhe importante. Chegamos a discutir se iríamos ou não buscar confirmação sobre a mensagem ser de fato real. Para definir um procedimento, ponderamos o seguinte: quando uma pessoa chega a um consultório e conta seu drama, nós prescindimos de confirmação. A gente considera real o que a pessoa trás. Esse foi o principal motivo para decidirmos lidar com aquelas mensagens como verdadeiras. E fomos ver o que era possível fazer dentro dos nossos limites. Começamos a trabalhar com estagiários, alunos do aprimoramento clínico. São psicólogos formados, que aderem ao grupo por se interessarem por esses assuntos. Começamos a desenvolver algumas modalidades de serviços psicológicos mediados pelo computador. O primeiro passo foi a tentativa de devolver uma orientação para as pessoas que nos procuravam. Não se tratava de uma psicoterapia, mas de uma modalidade de orientação, que depois se desdobrou em orientação profissional. Fizemos um trabalho bem legal, institucional, com jovens do Brasil todo. Infelizmente se descontinuou, mas, enquanto durou, atendeu cerca de 2000 jovens por um período de 2 a 3 anos. Atualmente, temos um trabalho de orientação específica para os chamados “viciados em computadores”. Esse grupo atualmente funciona como um dos serviços da clínica da PUC. É composto por dois estagiários, ou seja, psicólogos que fazem o aprimoramento, e 11 psicólogos colaboradores, ex-estagiários que se apaixonam pelo assunto e não vão embora nunca mais. Uma vez que eles não são mais alunos, não poderiam mais estar lá. Para que pudessem permanecer, criamos serviços cobrados. Um desses serviços é a oferta de cursos on-line, via COGEAE. Na graduação, oferecemos uma disciplina eletiva sobre esses assuntos, desde 2003, que não faz parte do currículo regular. É curioso: nas primeiras turmas, quase tínhamos de ensinar o aluno a lidar com o e-mail; hoje, a gente tem de correr atrás do tema que eles já dominam, sem que saibamos do que se trata. É uma disciplina semestral, com turmas de vinte e poucos alunos. Fazemos muitas palestras, pois a mídia faz muitas solicitações. Chovem pedidos de repórteres querendo nossa opinião sobre temas envolvendo a internet. Temos tido alguns momentos de parceria com os Conselhos Regional e Federal, porque no meio desse caminho teve-se de fazer alguma norma de funcionamento para essas coisas. Essa era uma necessidade e uma preocupação dos Conselhos, então a gente participou bastante de discussões para a elaboração dessa resolução, que ainda vigora, e também no planejamento de eventos na área. O primeiro Psicoinfo que houve foi proposto pelo Conselho Federal, em 98. Eles organizaram um mega-evento. Reservaram o Centro de Convenções Rebouças, abriram inscrições. Lembro-me de que fomos com medo. “O que vai rolar?” Quando chegamos, havia um convidado internacional, um grande auditório, só que, por assim dizer, havia mais gente na mesa do que na platéia. Foi tragicômico. De lá para cá, isso também vem mudando bastante. Já aconteceram três Psicoinfos promovidos pelo Conselho Federal ou pelo Regional. Em setembro deste ano, fizemos a terceira jornada do NPPI. A gente vem percebendo um aumento de interesse, principalmente dos mais jovens e dos profissionais de áreas afins, da área de tecnologia, querendo interagir conosco. Eles percebem a falta que faz entender melhor o aspecto humano do trabalho deles. Bem, resumidamente, é isso que o núcleo faz, além de tourear a PUC para conseguir permanecer lá dentro, o que nem sempre é fácil.

[Alberto] Qual é, afinal, a dificuldade?

[Rosa] É aquilo que eu disse: somos considerados meio esquisitos. “Mas você não dava aula de trabalho corporal”? Eu continuo dando aula de abordagem corporal. “Mas como você junta as duas coisas”? A desculpa que eu dou é que sou geminiana e capricorniana de ascendente. Eu não entendo nada de astrologia, mas sei que isso importa. É uma briga para permanecer, manter o grupo ativo. O grupo quer continuar, quer trabalhar. A gente acredita na importância disso tudo, mas, cá entre nós, nós somos resistentes à coisa técnica. A gente tende a ver essas coisas de um modo um pouco preconceituoso. A gente tende a fazer os fatos se encaixarem na teoria e o contrário. Posso dizer que aprendo isso tudo com os mais jovens. Há um gosto pessoal, mas são eles que estão trazendo isso tudo.

[Alberto] Desculpe-me se insisto um pouco nessa restrição da PUC. Como a instituição PUC oferece resistência ao desenvolvimento desse grupo?

[Rosa] Eu não chegaria a dizer que é resistência. Eu diria que é certa indiferença: “Isso é uma coisa um pouco exótica. Para quê”? Não é uma resistência ostensiva. Eu acho que é muito mais um desconhecimento do valor e da necessidade.

[Alberto] Um ponto cego!

[Rosa] É bem por aí. E a dificuldade com as interlocuções. Quando relatamos o que fazemos, por exemplo, não é que as pessoas não se interessam, mas aquilo é tão estranho para elas! É tão esquisito! Ainda há aquela imagem preconceituosa da tecnologia como coisa fria e da vida virtual como uma coisa irreal, portanto não legítima, que não merece atenção. É mais ou menos o que eu consigo perceber. Estou chamando de vida virtual, na verdade, uma coisa bem mais ampla. Sobre esse tema, justamente, só uma pitadinha do que diz o Pierre Levy.

[Arnaldo] Pierre Levy é aquele que trabalha com as redes, do saber?

[Rosa] Isso! É um filósofo canadense. Parece que ele é nascido em outro local, a Tunísia, talvez. Usa o francês e fala do virtual como algo que não se opõe ao real, mas sim ao atual. Ele dá alguns exemplos. Vamos tomar o da semente, primeiro, que é mais conhecido. Ele diz que, na semente, já está contida a árvore, virtualmente. A árvore ainda não está atualizada. Só depois que ela tiver permanecido na terra por algum tempo, nutrida, aquilo vai se atualizar. Essa visão é aristotélica e é conhecida por nós. Outro exemplo que ele usa é a situação do próprio site. Onde está o site do Fórum Junguiano neste momento? Virtualmente ele está em algum lugar. No momento em que digitamos www.forumjunguiano.com.br, ele se atualiza em nossa tela. Para Pierre Levy, a virtualidade é apenas mais uma forma de existência ou de realidade. Não é alguma coisa que nega o real, mas uma alternativa, uma outra coisa. Assim, para ele, a vida presencial e a vida virtual tendem a se tornar cada vez mais complementares, não opostas. Observando bem, a tendência é essa. A gente tanto vai à agência para depositar o cheque, quanto entra na internet para fazer pagamentos, ou para ver como está a conta. Não que seja a mesma coisa, mas é da mesma natureza. Com essa crise mundial, alguns comentários já surgiram: “Afinal, que dinheiro é esse que sumiu de onde”?
Tenho aqui uma lista que não vou explorar inteira, porque gastaríamos muito tempo. Eu a tomei emprestada dos temas abordados nos cursos on-line que oferecemos via COGEAE/PUC-SP: Evolução Humana e Tecnologia; O Novo Homem (há uma autora carioca, Nicolaci-da-Costa, que fala do surgimento do novo homem; A Máquina como Ferramenta; O Corpo Virtual, um tema que Pierre Levy aborda; O Público e o Privado na Web; O Imaginário Coletivo; Identidade e Comunidades Virtuais; Jogos Eletrônicos; Jogos em Rede. Só um parêntesis: não sei se alguém já ouviu falar em MUD (Multi-user dungeon), uma espécie de RPG on-line. São jogos on-line que reúnem milhares de adolescentes, não são dez ou quinze, mas milhares, que ficam oito, dez horas por dia on-line. Relacionamentos Amorosos via Web; Sexo Virtual; Comunicadores Instantâneos (nossa moçadinha faz trabalhos escolares com o MSN ligado, como todos em casa podem ver); O Mundo Hacker, que também existe; Os Crimes na Web; Os Usos Patológicos da Internet (não só de forma excessiva, mas também altamente questionável; todos os temas que a gente tem visto, como é o caso da pedofilia).

[Alberto] A psicopatia.

[Rosa] É. Os temas relativos à inclusão digital e à educação à distância. Eu me lembrei de uma ferramenta que descobri há pouco tempo, na última turma do curso on-line, que se chama Wiki. Wiki é uma palavra que vem de uma língua primitiva de um dos grupos indígenas. Significa “rápido”. É uma ferramenta que se usa na educação à distância para a construção de textos coletivos. Pede-se a um grupo de alunos virtuais para que façam um texto coletivo via internet. É uma graça! No começo, tateia-se, mas logo se percebe que é possível escrever um texto a quatro, a seis, a dez mãos.
Outro parêntesis: eu estou encantada! Até aqui, a gente tinha grupos pequenos, de 10 ou 12 alunos, mas os participantes estão em Recife, em Brasília, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em São Paulo. Nos grupos novos temos uma aluna que é psicóloga, brasileira, mas está na China, em Macau. Sempre fico um pouco encantada com essas possibilidades. São preciosidades. No âmbito da Psicologia, há de se pensar em limites e possibilidades, bem como sobre as questões técnicas, muitas vezes bastante complicadas, principalmente para nós. Há também as questões éticas e os problemas de legislação sobre atendimentos mediados por computadores. O assunto é ainda incipiente. Estamos caminhando, mas não como gostaríamos. Considerem-se as questões éticas que aparecem, ou as possibilidades de interagir on-line. O Joãozinho, por exemplo, acha que vai ganhar dinheiro fácil oferecendo terapia on-line; isso é um assunto. Outro assunto é quando recebemos uma mensagem de alguém que está no Japão, não fala a língua, sofre violência doméstica e pede ajuda. “Olhe, só vou lhe atender com duas trocas de e-mails, porque é essa a extensão da orientação”. Enfim, são exemplos. Há outras modalidades de serviços psicológicos via internet já em andamento e reconhecidos: consultorias, testes informatizados, uma série de coisas que já se tornaram rotinas, como é o caso do treinamento e da seleção de pessoal. Há muitas empresas de recrutamento e seleção que fazem a primeira etapa via internet.
De modo geral, pelo que consegui coletar, os estudos nas diversas áreas, incluindo a Psicologia, têm uma tendência a certa polarização: de um lado, encontram-se visões bastante otimistas, a internet vista como a grande maravilha do século, da nova era; de outro, vêem-se as tendências que costumamos chamar de “apocalípticas”: o humano se torna um cyborg, isto é, não se saberá mais até que ponto é com uma pessoa de verdade ou com um robô disfarçado que se irá interagir, sinal do fim dos tempos. Na Psicologia, de modo geral, há uma carência de estudos capazes de ir além do patológico; na Psicologia Analítica, em particular, a carência é ainda maior, porque nem isso a gente está estudando. Dentre os primeiros encontram-se mais os americanos e a razão para isso é que, antes mesmo de existir a internet, foi nos Estados Unidos que se soube de usos abusivos de jogos. A tendência aqui é caminharmos na mesma direção. Se não cuidarmos, acabaremos focalizando o que não vai bem, o que pode trazer problemas.
Eu trouxe duas citações para estimular nossa conversa, extraídas do material bibliográfico que pesquisei. Uma é a entrevista com Romanyshyn, realizada por uma autora que só agora conheci. Chama-se Dolores Brien. Nessa entrevista, ele pensa em voz alta: “Eu me pergunto, às vezes, se Deus, incluindo sua sombra, estaria no cyber-espaço!” A entrevistadora pede para ele falar mais sobre isso. Ele diz: “É só um pensamento nesse momento, mas eu posso dizer que a cyber-realidade é esse tipo de consciência que nos pede não só para estarmos conscientes de que estamos sempre sonhando, mesmo quando acordados, sonhando com os olhos bem abertos, mas também nos desafia a tomar responsabilidade pelo que nossos sonhos criam”. Esse material foi coletado na internet, dentre os poucos artigos junguianos que consegui localizar. A segunda citação vem das palavras da própria Brien. Diz ela: “A internet não é somente um avanço tecnológico. É também um evento de profunda importância psicológica. Aqueles que se recusam a usá-la, junguianos entre eles, a enxergam como outra armadilha tecnológica, que nos rouba tempo, dinheiro e energia. É uma pena que pensem dessa forma, porque a internet é um local extraordinário para se reconhecer a profundeza do inconsciente coletivo de nosso tempo. Pode ser um campo psicológico tão fértil quanto o dos contos de fadas, o do folclore e o dos mitos antigos. Na internet novos mitos têm-se formado, até agora ignorados, contendo arquétipos que estão chegando. E novas aventuras para a psique nos aguardam”. Isto é algo para se ler e reler. Brien defende o estudo desse fenômeno pelos junguianos.
E, claro, há junguianos que acreditam ser uma perda de tempo esse tipo de estudo. Indagam se vale a pena o investimento.
Célia fez a gentileza de contar para vocês: isto é um pouquinho do que já publicamos, os dois livros do NPPI e, em breve, estará no nosso site o material contido neste CD, que são os anais da terceira jornada, realizada no último dia 20 de setembro. Nosso site é www.pucsp.br/nppi. Nosso email é nppi@pucsp.br. O link para os anais da III Jornada do NPPI é http://www.pucsp.br/nppi/jornada/index.html.

[Arnaldo] O terceiro encontro foi esse que aconteceu agora?

[Rosa] Foi no dia 20 de setembro. Estas são as referências das citações que eu trouxe para vocês: um dos livros do Pierre Levy (ele tem vários), “O que é o virtual”. A tradução para o português é de 2005, mas o original é de 1995. Tudo isso já se podia divisar naquela ocasião. Para quem se interessar, o Pierre Levy fez uma entrevista em São Paulo, no Roda-Viva, em 2001 ou 2002, que já era bem profética. A transcrição da entrevista pode ser lida no site da FAPESP. Eu diria que 90% do que ele afirmou continua valendo. O que ele disse que iria acontecer realmente está acontecendo. Ele fala das árvores do conhecimento, da inteligência coletiva, várias teses interessantes. Os outros dois textos eu coletei neste site junguiano (http://www.cgjungpage.org). O mesmo site promete uma edição especial para o outono (primavera, aqui) sobre tecnologia na perspectiva junguiana.

[Rita] Não sei se é por acaso, mas, na Psicologia Analítica, o Roberto Romanyshyn é da turma dos arquetípicos, como é o caso de James Hillman.

[Rosa] É mesmo? Não sei se é por acaso. Há outro autor, cujo nome não me ocorre agora, que critica os hillmanianos por se afastarem do estudo da internet.

[Rita] E ele é dessa turma. Interessante!

[Rosa] Gente, isso foi o que eu pensei em trazer para vocês. Agora, vamos ver como trabalharemos.

(Palmas)

[Célia] Bem, meu papel aqui é mediar. Tenho uma provocação para fazer, também. Essas questões são altamente filosóficas e me intrigam. Você falou sobre o virtual e mencionou a semente, uma potência, um ente que se diferencia do ser. Uma boa semente pode se transformar em um ser e nós não sabemos em qual ser ela irá se transformar. Minha questão é a seguinte: o internauta cria várias maneiras ou modos de ser para se apresentar, da mesma maneira que um ente assume suas maneiras de ser na relação com seu mundo. Parece-me que há uma tese, defendida na PUC e citada no seu livro, que trata de elementos do mundo real que entram nos jogos, como é o caso da Second Life, envolvendo dinheiro. Eles pegam o dinheiro e compram um terreno, um imóvel. Não estaríamos potencializando modos ficcionais de soluções para problemas da vida real, que, ao contrário de serem confrontados, seguem uma vida paralela, uma Second Life, na internet? O que quero destacar, na verdade, é uma intrigante questão ética: o amor líquido, as relações vapt-vupt, as meninas que entram na internet para tirar a roupa e fazer sexo rápido. Recentemente, ouvi no consultório a história de um rapaz que mal esperou a menina tirar a roupa e já concluiu seu intento sexual do outro lado da linha. A menina fica frustrada e se descobre tratada como “menos do que uma existência”. O paciente que contou essa história é um senhor. Diferentemente do rapaz aqui mencionado, esse senhor ainda espera a menina tirar a roupa. Sente-se digno por causa disso. Ele já desistiu de se relacionar, porque ele não se sente um ser quando se relaciona. Daí sua preferência pela internet.

[Rosa] Ele desistiu da relação presencial.
[Célia] Exatamente. Outra coisa: jovens usuários de drogas que usam a internet, ou seja, uma patologia maior. Na relação presencial eles não encontraram a droga. Usam a internet, então, para encontrá-la, o que nos leva a um terceiro nível de patologia do uso da internet. O que vem a ser essa separação entre o virtual e o real, quando ações no mundo virtual têm conexão com a vida real das pessoas? Acho que o foco de nossa discussão não é a tecnologia. A gente está falando de uma tecnologia e de uma ferramenta. A Psicologia está discutindo exatamente para o que aponta este momento da humanidade, além de indagar como ela pode contribuir com a tecnologia da informação.
[Rosa] O que você diz permitiria quinhentos palpites, observações, reflexões e derivações. É até difícil. Toda essa variedade de situações que você descreve reforça a importância de começarmos a observar quantos desdobramentos os usos dessa ferramenta podem gerar. É complicado a gente se situar nesses limites de fronteira – o que é o real, o que é o presencial, o que é a junção disso, onde uma coisa tangencia a outra. Diversas formas de identidade são gestadas aí. E ainda soam estranhas, não só porque é algo novo para nós, mas também porque é um processo ainda em andamento, sem cara definida. Há autores falando em novas formas de identidade, identidades múltiplas, coisas que ainda nos parecem esquisitas. Mas isso já está sendo descrito e discutido como uma tendência atual. Um dia desses, não tenho na memória a referência, li alguma coisa que comparava a identidade integrada e única da era industrial e o que é identidade hoje, com esses personagens virtuais, com essas várias facetas do eu, que se experimentam nos espaços virtuais, bem como em outros contextos.

[Célia] Abrimos a discussão agora, ou fazemos um intervalo para o café?

[Rita] Coffee-break agora e grupão na seqüência, minha sugestão.

[João] Depois de tudo que você falou, eu vou precisar de um café.

(INTERVALO)

>> ACOMPANHE A SEGUIR O DEBATE COM O PÚBLICO QUE SE DEU APÓS A APRESENTAÇÃO DE ROSA FARAH.


Editado pela última vez por Admin em Ter Ago 11, 2009 11:17, num total de 1 vez
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MensagemEnviada: Ter Ago 11, 2009 11:14    Assunto: Debate com o público após a apresentação de Rosa Farah Responder com Citação

Após a apresentação da convidada Rosa Farah, iniciou-se um debate, cuja transcrição vem a seguir:

[Roseli] Meu nome é Roseli. Sou antropóloga. Leio Jung por minha conta e risco. Trabalho numa empresa de tecnologias de informação e comunicação. Sou a única antropóloga no meio de um monte de engenheiros. Então, eu sei o que você quer dizer quando fala que estranham e acham bizarro. Há quem diga que isso é perfumaria. Mas pouco a pouco as pessoas vão percebendo a necessidade. Fui contratada recentemente. Acho que há preconceitos a vencer de ambos os lados. Gostando ou não, querendo ou não, é preciso pesquisar e estudar, porque essa é a realidade que está aí, desafiando psicólogos, antropólogos, sociólogos e os próprios engenheiros. Tenho tantas perguntas! Quero saber se vocês acham que as patologias são as mesmas, sendo a novidade apenas o uso das novas tecnologias. Por exemplo, existe o vício no jogo de cartas, que agora foi para a internet. A pedofilia é outro exemplo. Para mim, bem preconceituosamente, o Orkut é um voyeurismo e um exibicionismo. Enfim, essas patologias sempre existiram e agora ganharam novos modos de manifestação, ou as novas tecnologias estão criando novas patologias? Há outra pergunta, talvez sem resposta, só para refletirmos a respeito: como seria uma inclusão digital saudável para os excluídos digitalmente? Esse é o tema com o qual estou trabalhando, a inclusão digital saudável para os excluídos, os analfabetos, os idosos etc.

[Rosa] São temas pequenos, simples, não é?

[Roseli] É fácil perguntar; é difícil responder. O princípio em que a sociedade se baseia, o dar e o receber, a reciprocidade. Você tem a obrigação de dar, de receber e de retribuir. Para isso, você precisa de tempo. Se você retribui rapidamente, você não quer se relacionar com a pessoa. É necessário tempo para se ter reciprocidade e relação. O que essa velocidade da internet promove nos relacionamentos?

[Arnaldo] Posso fazer uma proposta de encaminhamento? Minha sugestão é fazermos uma rodada de perguntas. Depois, a Rosa faz um apanhado e a gente abre uma conversa, senão poderemos ter uma discussão polarizada. Vamos fazer assim?

[Reações favoráveis; Alberto se dispôs a registrar os temas no quadro.]

[Arnaldo] Eu vou levantar uma pergunta que me instiga muito: a questão da transferência na web. Nós, psicólogos, temos a transferência como uma coisa muito relevante no nosso trabalho e, em função disso, privilegiamos toda a construção do setting. A gente tem um grande investimento e um grande cuidado na construção do setting presencial. É possível a construção de um setting virtual? Como podemos entender o fenômeno transferencial dentro dessa condição virtual? Não sei se alguém tem experiências nesse sentido.

[Lilian] Para mim é algo novo. Tenho curiosidade sobre o trabalho clínico com crianças. Vocês conhecem projetos voltados para isso? A realidade, hoje, ocupa o lugar anteriormente ocupado pelas histórias, pelos contos de fada. Em uma instituição onde trabalho, eu tive de tirar uma arma da caixa de ludo. As crianças diziam “Quero ver seu miolo escorrendo aqui pelo chão”, quer dizer, coisas muito reais. É uma inquietude minha.

[Carmem] A questão que me ocorre tem a ver com o que o Arnaldo falou. Os “olhos nos olhos”. Quando sou atendida por um psicólogo, o espaço é importante para mim. A construção do espaço por parte da pessoa com quem estou: a energia, os objetos colocados na sala, tudo isso faz diferença. De alguma maneira, sou atraída a ficar ali. Nem todo mundo é um paciente igual a mim, mas o que se pode dizer sobre a internet e essas necessidades de contato, energia, olhos nos olhos? Outra questão diz respeito à família. Hoje em dia, em famílias financeiramente abastadas, cada um tem seu computador e sua privacidade. O pai se distancia do filho, que extrapola o tempo de uso da internet. Atendi um pai que se queixava de que o filho ficava muito tempo na internet. Isso mudou, mas agora ele precisava lidar com o filho e com as dificuldades que tinha com o menino. Ele se deu conta de que a internet acabava suprindo parte da necessidade que o filho tinha de contato com o pai. Como podemos ajudar essas famílias?

[Paola] Minha questão ainda está um pouco vaga, mas é ligada à linguagem que a gente utiliza para se comunicar via internet. Questões que a prática suscita fazem pensar no “como” da comunicação. Como nos comunicarmos? Sou professora e, às vezes, eu me comunico com meus alunos por internet. Freqüentemente me pergunto qual é a linguagem mais adequada. O que colocar ali? Uma pequena palavra, uma preposição, uma vírgula, tudo muda. Acredito que, se tivermos parâmetros de “como”, conheceremos melhor os fundamentos. Entendem o que eu quero dizer? A prática me motiva a saber se existem parâmetros de como um profissional pode ou deve se comunicar com as pessoas, se há um certo e um errado, se há o mais adequado. Eu me sinto muito solta – por isso vim aqui. Existem parâmetros para se fazer isso? A linguagem é coordenada por quais princípios? O que posso e o que não posso utilizar?

(Comentários sobre as diferentes respostas emocionais a um email, podendo inclusive levar a problemas institucionais. O tom com que se escreve e o tom com que se lê.)

[João] Não tenho exatamente uma pergunta, mas é uma coisa que me deixa confuso: Fruto da nossa própria formação teórica, valorizamos muito em uma terapia o que chamamos de "reforçar o ego", a "integridade" do ego. Ou seja, por um lado, buscamos um ego íntegro e, por outro, temos o que hoje chamamos da identidade múltipla, isto é, as várias identidades que um indivíduo assume na internet. De vez em quando eu fico pensando se isso não pode levar a uma boa esquizofrenia... Que conseqüências traria, através do tempo, a personalidade múltipla? Hoje em dia, na internet, temos pessoas que vivem diferentes pessoas com diferentes pessoas. O que isso ocasionará em uma personalidade e, também podemos pensar, se o resultado for positivo, não estaria contradizendo alguns conceitos básicos que a gente teve no passado (a identidade, o ego)?!

(Arnaldo comenta a pergunta de João)

Olha, pela pergunta pode ser as duas coisas, exatamente. Acho que tem uma nova esquizofrenia, sim, – não só virtual, como virtuosa – acontecendo.

[Célia] Em se falando de identidade, eu sinto falta de que as pessoas se identifiquem. (Os participantes dizem seus nomes.) Um dos problemas da internet que estamos discutindo é o anonimato. As pessoas (aqui) falam e nós não sabemos quem são.

[Doroti] Rosa, sobre os e-mails que são recebidos, como você orienta os consulentes? Como você procede, quando a pessoa não é de São Paulo? Você encaminha para um centro de saúde, para um médico, um psicólogo? Como você, em seu trabalho na PUC, via email, viabiliza o atendimento à pessoa?

[Anna Paula] Quero saber se já existe algum trabalho na psicologia com relação ao Second Life. Seu livro, talvez. Não sei se já se pesquisou com pessoas que fazem uso dessa ferramenta.

[Rosângela] Em primeiro lugar, Rosa, estou muito mexida. Como eu estava ingênua! Onde é que eu estava com a minha cabeça? Depois, quero falar um pouquinho sobre a experiência que tenho de atendimento on-line. Penso muito em como essa coletividade vai realmente produzir novos mitos, novos paradigmas. É um tempo muito novo e muito assustador, também. Convidei minha equipe, colegas e amigos para virem aqui. Não consegui mobilizar ninguém. Cada um tem sua vida. Estou aqui um tanto envolvida, querendo saber, querendo estar dentro. Tudo que é novo me assusta, mas também me fascina. Tenho essa idéia do confronto dentro de mim. As crianças são bastante especiais dentro do meu trabalho. Como a tecnologia vai influenciar o trabalho prático com elas? Eles vêm com cada nome! Bluetooth e semelhantes. “Tia, você conhece isso”? Trazem o celular, os joguinhos... De que forma vou entender essa linguagem das crianças? (Alguém comenta a pergunta) Muito interessante a contribuição deles. Como é que vai ser essa realidade? Vamos mudar a maneira de lidar com eles? As crianças estão pedindo uma coisa nova. Estou sentindo isso faz algum tempo.

[Marjorie]. Tenho muita curiosidade sobre essas personalidades. Vejo que minha geração é bem forte nisso e acho que muita gente assumiu uma personalidade totalmente oposta, ou seja, o que a pessoa desejaria ser, um ideal. Na vida real, ela acaba deixando isso de lado. Acho isso muito complicado. Falta muito tato. Hoje em dia está muito complicado você ter uma relação de amizade, um relacionamento amoroso. As pessoas estão nesse mundo (internet) em demasia. Fecham-se para se protegerem. Minha dúvida é sobre essa defesa, o medo da exposição da personalidade. As pessoas expõem o que elas querem expor, não sua verdade.

[Renato]. Eu sou estudante; estou iniciando agora; tenho uma base fraca em relação a isso. Você poderia comparar a relação com a internet ou com o computador com as TDA’s, TDAH’s? Os déficits de atenção. Li estudos que falam em dificuldades psicomotoras. Gostaria de ouvir um comentário sobre isso.

[Renata] Minha pergunta é sobre o preconceito. Diante de tanta novidade, diante de tanto desconhecido, como ficam os psicólogos e as pessoas? Como é ouvir dizer que duas pessoas se conheceram, ou se relacionam pela internet? As pessoas sempre mentem e ocultam fatos sobre suas vidas? Como enxergamos essas ferramentas? Há formas genuínas de relacionamento via internet? Esse meio permite o contato com pessoas que estão distantes, bem como permite encontrar pessoas que fazem parte de uma mesma comunidade. A ferramenta está disponível para diversos fins; quem vai escolher as finalidades somos nós. Minha pergunta tem a ver com o preconceito em relação ao atendimento on-line, ou à maneira como as pessoas se relacionam via internet, seja pessoal, seja profissionalmente.

[Marina]. Um pouco disso que a Renata falou, a virtualidade. No consultório, surgem pacientes que tiveram relacionamentos a partir de contato virtual; um paciente trouxe um laptop para mostrar projetos que ele faz e através dos quais conseguiu criar um vínculo e se relacionar. Como criar um setting para o atendimento on-line? Como se delimitam o espaço, o tempo, o vínculo, a transferência? Isso tudo realmente é desconhecido.

[Vanda] O que me atraiu aqui, hoje, foi a possibilidade de discutir sobre as experiências vividas na internet: os relacionamentos que se estabelecem, o modo como se dão, a qualidade deles, como evoluem etc. Mas me surpreendi com algo que me despertou a curiosidade. Você falou sobre o possível aparecimento de novos arquétipos. Pensei o seguinte: se a personalidade se desenvolve com a humanização dos arquétipos, e se, para essa humanização, são necessárias relações interpessoais, de que forma a internet contribui para humanizar esses arquétipos? Aí está uma questão mais estrutural e teórica. Um caso que acompanhei suscitou o seguinte: o positivo na Second Life está em que ela tem ajudado o desenvolvimento da personalidade equivalente a ela na vida real, também. É como se a pessoa pudesse viver riscos menores – já que há riscos na Second Life – como o risco de fazer as coisas bem feitas, gastar dinheiro, perder dinheiro, envolver-se em relacionamentos. Há riscos, talvez menores, que preparam a personalidade para os riscos maiores no futuro. Não tenho uma idéia muito precisa, mas parece que isso está acontecendo. A dúvida é: até que ponto aquilo fica integrado à consciência, uma vez que há emoção, envolvimento, ou seja, a pessoa fica ligada. Ao expandir a consciência, poderia a personalidade integrar esses aspectos dissociados, que se encontravam na sombra?

[Rita] Minha questão será bem esquemática: a alma, seus literalismos e os assim chamados “mundo real” e “mundo virtual”. A gente lida com o mundo do psiquismo, que é um mundo simbólico, ao qual temos acesso através de expressões, mas não diretamente. O literalismo é uma característica do ego, algo que se tenta superar em decorrência do desenvolvimento psíquico mais amplo. Coloco em dúvida falarmos sobre mundo virtual e mundo real, porque no mundo real de uma relação a dois, corpo a corpo, quanto há de virtual? Reciprocamente, no mundo virtual da internet, quanto há de real? A possibilidade configurada naquele momento, como uma transa, algo assim. Isso pode ser super real, através de um mecanismo virtual. Trata-se de ampliarmos o problema de nosso próprio literalismo, do literalismo da nossa linguagem, da nossa abordagem. Esses mundos, virtual e real, ficam bastante passíveis de discussão.

[Célia] Retomo o problema da identidade frente aos modos ficcionais favorecidos pelo espaço virtual da internet, bem como os aspectos construtivos e destrutivos desse espaço.

[Alberto] Lembro-me de que, aos quatro anos, meu filho chegou entusiasmadíssimo e disse: “Pai, o Tarzan, a Chita, as bananas...” Ele contava uma coisa muito rica, cheia de detalhes. Dois dias depois eu descobri que ele estava se referindo aos movimentos num game. Ele via ali um colorido que eu não via. Naquele momento, pensei: se eu quiser entrar em contato com meu filho, vou precisar me preparar para ver o colorido que ele vê e eu, não. Há 24 anos, então, saí de lá e me inscrevi num curso de informática. Outra vivência: eu olhava para um manual de instruções sobre como ligar o novo aparelho de DVD que eu havia comprado e experimentava enorme dificuldade. Minha pequerrucha, que também tinha 4 ou 5 anos, vira-se para mim e diz: “Pai! Ô pai!” Toma em suas mãos os fios, liga um aqui, outro lá e pronto. Estava tudo certo. Novamente, eu pensei: se eu quiser que o mundo (tal como ele se apresenta hoje) faça sentido para mim, vou precisar achar que essas coisas são tão simples como elas parecem ser aos olhos da minha filha. Foram os filhos que me alertaram para isso nessas duas cenas. Terceiro ponto: para nós, que já estávamos aí, o advento dessa tecnologia inaugura uma era; para as crianças, que entram em cena com tudo isso já aí, não há recorte algum. A vida já é assim, tal como se apresenta. O dado já está disponível e a criança não tem de assimilá-lo. A impressão que tenho é que a prontidão da criança para absorver, assimilar, decodificar essas coisas é infinitamente maior do que a dos nossos caminhos neurológicos, que foram construídos em outra direção e vão precisar se diversificar, se ampliar, se multiplicar. Vai ser necessário silenciar os caminhos já construídos, as sinapses habituais, para darmos conta dessas novidades. Tudo isso é vício. É compulsão, também. Ou seja: para certo número de coisas, o ego é hoje mais um complexo inconsciente entre outros.

[Rosa] É!... Acho que estamos aqui percorrendo vários ângulos. Um garoto de 14 anos, meu sobrinho, não tem com quem dialogar, a não ser a turminha dele. Um dia desses, ele me ligou à noite, pediu para eu entrar num site e ver o absurdo que uma psicóloga tinha escrito. Ele estava bravo com a psicóloga. E eu fui ver o que era. Resumindo a história, a psicóloga tinha dado uma opinião sobre um determinado fenômeno, os fakes. Não sei se vocês sabem do que se trata. (Um participante explica: Uma pessoa cria um perfil falso, explicitando que é falso.) A pessoa não está mentindo. Ela cria uma personalidade alternativa, virtual, mas todo mundo sabe que aquilo é assim.

[Renata] Só uma pergunta: até que ponto é falso? A pessoa sabe que é, mas ela está falando dela, não?

[Rosa] Então! Mas observem a visão desse menino e a visão da psicóloga. A visão dela talvez fosse a de muitos de nós, qualquer um de nós, não? A mãe de uma garota escrevera para ela porque a menina teria se confundido com o perfil fake de alguém. A psicóloga fala dos perigos de você fingir ser uma pessoa que não é, e que imagina ser. Se você não for responsabilizado, seus pais é que vão ser. Ela pegou a coisa literalmente. Para o jovem, ela não está entendendo nada! Ele estava indignado, porque ela não estava entendendo o espírito da coisa. Ela é uma pessoa conhecida e o que ela diz é correto. Mas os jovens estão adiante disso. Aquele fake é outra coisa.

[Célia] As identificações são parte do processo de formação de identidade. É um exercício. O problema é a pessoa se fixar num processo de identificação, numa figura, num processo de idealização, e que isso permaneça indiscriminado.

[Rosa] Querem ver outra situação? Um caso bastante comum. O menino contava para o amigo o porquê de ele ter desmanchado o namoro: “Ah, sabe aquela menina? Ela agora deu de ser assim: quando a gente se encontra, ela fala do jeito que ela escreve no Messenger”. Ele a estava criticando por ter passado para o presencial as posturas do virtual. Ela mesma não percebia o que estava fazendo, mas ele, sim.

[Célia] Rosa, como é a ponte entre esses dois mundos?

[Rosa] Eu gostaria de ter a resposta, mas acho que temos muito a pensar antes disso. Lourival de Campos Moura, o colega que mencionei e que iniciou esse trabalho comigo, infelizmente está com limites de saúde que o impedem de continuar o trabalho. Ele tem idéias muito interessantes. Ele falava, por exemplo, de alguma “possível nova prontidão no humano para tolerar o virtual”. Essa era a expressão que ele usava. É alguma coisa que não está clara ainda, mas está buscando expressão. E viria trazer complicações, com certeza, confusões, dificuldades, transição, mas está aí por alguma razão e para alguma função, sem que saibamos direito quais são. Acho que essa moçada vai descobrir mais rapidamente e, se a gente não ajudar, eles vão ter de se virar sozinhos.

[Célia] Estamos aqui tentando. Nosso exercício e nosso desconforto diante disso tudo expressam a necessidade de descobrir qual é essa ponte, como se a virtualidade fosse uma função transcendente dessa nossa época. Não é propriamente uma linguagem. Acho que é alguma coisa além da linguagem, porque passa pelo universo do inconsciente, passa pela emoção. Quando se fala em emails, existe um espaço além da linguagem, que não se acessa.

[Rosa] São o espaço e o tempo vivenciados de forma nova. Assim, por exemplo, fala-se muito de uma alteração da vivência do espaço e do tempo ao navegar. O relato de pessoas que fazem uso excessivo, compulsivo, é que a vivência do tempo durante aquela atividade realmente fica alterada. Basta a gente observar o que geralmente faz: a pessoa diz que vai só dar uma olhadinha nos emails. Mas, ao entrar, encontra uma notícia no UOL e acaba se lembrando de alguma outra coisa. O tempo passa e ela não se dá conta. Tem-se a impressão de que só transcorreram trinta minutos, quando foram duas horas. O contrário também ocorre: a pessoa quer baixar o filminho do youtube, que leva três minutos, e experimenta aquilo como se demorasse horas. Ela quer aquilo rapidamente.

[Vanda] Instantâneo.

[Rita] Um sábio chinês disse que o tempo é o espaço entre dois pensamentos. Acho que isso ajuda a pensar por que, na internet, o tempo é algo tão relativo. Quero colocar uma coisa em relação a nós, aqui, que está me incomodando. Ao abordar esse tema, o psicólogo tem de deixar bem claro se está tentando localizar as patologias inerentes a essas questões, ou se está tentando fazer uma leitura da alma, da psique. Muitas vezes a gente fala da coisa, mas do ponto de vista da patologia, como se o patológico fosse a coisa. Acho isso perigoso. Então, para sermos bem ouvidos, acho que nós, psicólogos, precisamos começar a fazer essa discriminação. Quando é que estamos tentando compreender as patologias que são conseqüências desses meios, e quando é que estamos tentando fazer uma leitura da alma humana neste momento, com tudo isso incluído? A internet já está em nossas vidas. Não há mais o que discutir. Isso é importante. Fico com a sensação de que permanece confuso. Não sei se alguém compartilha isso.

[Paola] Eu queria levantar uma hipótese. Quando falávamos sobre o fake, eu me lembrei das crianças fazendo vários personagens. Lembrei-me, também, daquela fase do desenvolvimento infantil em que a criança passa a perceber que existe a metáfora, uma coisa passando a significar outra. Corresponde à fase pré-operatória do Piaget, que é humana. É arquetípico isso. Pensei, então, que a internet talvez entre como um instrumental que potencializa a capacidade de simbolização. (Os participantes comentam.) Não é só patológico; acho que existe alguma coisa arquetípica, algo que pode potencializar, projetar para adiante. Alguém perguntou se é um novo arquétipo, ou se é a atualização de arquétipos antigos. O que é arquetípico está aí, mas será que não estão emergindo novas potencialidades que a gente não via antes?

[Rosa] As novas expressões...

[Paola] Dos arquétipos? Exatamente. Pode ser.

[Rosa] A Dolores Brien diz mais ou menos o seguinte: se o conhecimento da internet é um deus, esse deus tem de ser Hermes. Então, são expressões das velhas matrizes no tempo atual.

[Roseli] Que são também criativas.

[Rosa] Mas que a gente considera estranhas. Eu estava tentando defender a idéia de adotarmos esse outro olhar, inclusive para não despertar no nosso ouvinte (cliente, escola, família) a visão que o menino expressava: “Ela não entende do que se está falando, ela não entendeu o processo”. Se ela não entendeu, isso significa que avaliou o processo como uma patologia, não como uma expressão legítima.

[Rita] Uma coisa não invalida a outra. O importante é que se diga de onde se está partindo. Se a psicóloga tivesse clareado isso... Mas ela afirmou aquilo e pronto. Aí, ele ficou indignado.

[Rosa] Não que não houvesse um alerta legítimo ali, mas era pequeno perto da amplitude do jovem que estava vivendo o processo. Há outros aspectos que eu considero úteis, sugestões para levarmos em conta ao fazermos nossas experimentações. Houve duas colocações sobre a aplicação prática, como o uso de computadores para o atendimento clínico. O Conselho Federal já se ocupou com isso. É importante diferenciarmos entre psicoterapias via internet e formas de orientação. Antes disso, outro alerta, outra precaução. Refiro-me aos primeiros momentos em que começaram a aparecer ofertas de terapia via internet, o que, inclusive, causou espanto, susto, reações violentas, ou mesmo radicais. A gente precisa tirar da cabeça a idéia de que a terapia on-line, ou via internet, possa substituir a terapia presencial. Vamos tentar esquecer isso. Não se trata de uma coisa no lugar da outra. Essa confusão é o que nos leva a comparar o ambiente, os “olhos nos olhos”, o setting. No começo, isso angustiava. Parou de angustiar desde que eu percebi outra coisa que pode ser feita via internet. A terapia presencial sempre vai ter seu espaço, vai evoluir do jeito dela, vai se transformar do jeito dela. Essa comparação que a gente tende invariavelmente a fazer, essa comparação taco a taco, é furada. E a gente precisa perceber que é furada. Não é uma coisa para substituir outra. É outra história. Não é um virtual para se opor ao presencial. É outra forma de se trabalhar, outro tipo de contato, que vai seguir outros parâmetros, vai ter novas regras, vai ter de ser criado. Alguém falou do texto há pouco. Quero exemplificar um pouquinho o que a gente tem feito lá na PUC e o que tem ajudado. Chega um e-mail e causa um impacto, pelo tipo de relato. E o impacto varia desde a compaixão pela pessoa, pela angústia que ela sente, até a irritação, a raiva etc. São coisas que experimentamos com o cliente no consultório, só que, na internet, parecem potencializadas. Você vê ali, concentrado em uma lauda, um despejo de situações conflitivas. Qual foi, então, como regra, o procedimento que a gente acabou adotando? Quando chega um e-mail com esse teor, a gente primeiro lê o que aparece lá, on-line. Por ocasião da reunião da equipe, fazemos uma primeira leitura e comentamos o que o texto mobilizou. Em seguida, pessoas distintas lêem a mensagem com seu próprio tom de voz. A gente procura ler aquela mesma mensagem tantas vezes quantas forem necessárias para filtrar e decantar o que aquele e-mail provocou no grupo. Depois de certa digestão grupal, alguém fica encarregado de elaborar uma resposta a ser passada para a lista do grupo. Nesse ponto, a gente comenta, altera, acrescenta alguma coisa. Só depois essa mensagem vai ser enviada como resposta.

[Célia] Essa questão do tempo.

[Rita] E da elaboração grupal das emoções. E da transferência.

[Rosa] Não é esse o procedimento adotado com todos os e-mails que chegam, senão só poderíamos dar conta de um por ano. Mas, com esse processo, há uma série de mensagens que a gente consegue responder com mais agilidade e com mais tranqüilidade. Quem começou com esse método foi o Lourival, mas o grupo tem mantido esse procedimento sempre que chega um e-mail mais impactante, porque, nesses casos, a gente percebe o quanto é possível ler nas entrelinhas, o quanto o tom de voz do leitor norteou o que foi sentido pelo grupo, além de uma série de processos que nem seria possível detalhar aqui. É claro que as pessoas não vão continuar fazendo isso pelo resto da vida para atender via internet. Porém, enquanto precisarmos aprender a lidar com esse canal, vai ter de ser um pouco por aí. Pelo menos esse foi o caminho que o grupo escolheu. A questão do setting, da proposta terapêutica, a gente vai ter que recriar tudo isso.

[Rita] Você lê um e-mail e, como não ouve a voz do emissor, você dá a sua entonação. E quem disse que não há distorção quando a gente ouve a voz do emissor?

[Rosa] A gente não ouve direito nem nossa própria voz. A gente virtualiza até a própria voz, não é? Quando a gente ouve a própria voz no gravador ela não é igual à voz que a gente ouve quando a gente mesmo fala.

[João] Ou o contrário disso, também. Eu atendo uma pessoa que grande parte da sua interação se faz pela internet. Há conversas normais, pela internet, e às vezes, alterações, brigas etc. E aí é interessante se notar o trabalho que ocorre com os complexos. Na internet, há um tempo entre o que alguém perguntou e a resposta que vai ser digitalizada. Esse é o tempo em que entra uma reflexão, que entra o ver a coisa por outros ângulos, o que não acontece numa conversação normal, não é? E depois você pode retomar tudo isso que aconteceu, reler o que escreveu, ver sua discussão exatamente como ela foi e não como você a rememora, onde a verdade é absolutamente outra. Na verdade, quanto mais complexado você for, mais vai ser outra a discussão que você tem na cabeça. E é interessante (e terapêutico) lidar com os complexos através de uma discussão na internet. É um outro lado do que a gente falava aqui.

[Rosa] Enquanto o João falava, eu me lembrei de uma coisa que, acho, todos já vivemos em algum momento. Quantas vezes algum cliente chegou para você, para mim, para qualquer um de nós e disse: “Aquela coisa que você me disse tal dia foi tão importante”!

[Rita] (imitando o psicoterapeuta) “Eu disse? Eu? Ahn”?

[Rosa] Quando ele está satisfeito, muito bem! Quando foi bom, muito bem!

[Rosa] Posso contar uma história antológica lá do grupo? A gente tem uma seleção dos casos bizarros, ou daqueles que se tornam emblemáticos. E eu posso garantir que são reais. Resumidamente, era um casal “muito bem, obrigado”. Um belo dia, a moça resolve testar a lealdade, a fidelidade do rapaz. Ela cria um e-mail para tentar seduzi-lo, um e-mail que ele não reconhecesse como dela. E ela faz um assédio; ele demora a cair no papo dela. No fim, ele acaba cedendo, mas continua dizendo que é casado e que é feliz. Ela insiste, vai cercando, cercando. Na qualidade de esposa, ela o questiona. Ele acaba admitindo que realmente estava se correspondendo com alguém, mas que não tinha nada, ia encerrar o assunto etc. Ela insistiu até conseguir marcar um encontro com ele. Foi ao encontro presencial disfarçada com uma peruca e óculos escuros. Só se revelou na hora em que estava face a face com ele. Aí os dois caíram em prantos. E foi uma briga, um verdadeiro drama. Acabaram se entendendo. Nesse ponto, ela escreveu para nós e contou que o relacionamento sexual tinha melhorado muito, mas ela estava infeliz, com uma questão não resolvida. Ela estava com ciúmes daquela pela qual ele se apaixonou; além disso, durante a troca de e-mails ela tinha mandado uma foto. Se ela não tivesse mandado aquela foto, não teria sido tão complicado. Mas, com aquela foto, aquela personagem tinha uma cara. Era como se fosse mais real do que se o contato fosse só verbal. Ela não pedia orientação alguma. Só queria contar sua história.

[Renata] É! Eu tenho uma paciente – não apenas uma, na verdade – que tem ciúmes... Ela quebra a senha do marido e descobre que ele tem um relacionamento, que ele troca e-mails suspeitos com alguém. E ela me pergunta: “Isso é traição”?

[Arnaldo] De quem para quem?

[Renata] Pois é, foi isso o que eu falei: “Ao quebrar a senha, você invade a privacidade dele. Essa é a discussão de número um. A discussão de número dois é o que interessava a ela: ele é fiel, ou não? Se o cara é fiel, eu não sei.

[Roseli] Mas essa foi a primeira pergunta que eu fiz: são patologias novas que a internet traz, ou são as mesmas de sempre, só se alterando o meio? Costumavam-se abrir as cartas no bico da chaleira, não é? Isso é folclore. Então, sempre existiu.

[Rosa] Acho que, por um lado, é verdade que a gente está presenciando o surgimento de “n” novas versões de antigas formas de expressão, mas não sei se dá para afirmar que tudo que está surgindo é só isso. Não haveria nada de novo nessa forma de existir permeada pelo virtual?

[Célia] Eu acho que existe! Uma banalização.

[Rosa] Acho que ainda não está claro para nós. Não me refiro apenas às possíveis patologias, ou coisas inadequadas, mas também novas coisas construtivas, positivas, novas expressões.

[Arnaldo] Penso que é como o Alberto falou, quando ele se vê diante de uma situação provocada pelo filho ou pela filha, que o coloca num lugar muito diferente do habitual. É interessante. De fato, você tem um padrão antigo, mas você tem também o novo. Acho que esse é o desafio com o qual nós estamos nos defrontando. A gente não consegue ter uma leitura dessa complexidade, porque a gente tem uma forma de pensar baseada em outro paradigma. Daí ser essa uma provocação muito grande para nós, diferente, talvez, do que acontece com as novas gerações, que já nascem com isso. Então, acho que se repete uma coisa velha, mas, ao mesmo tempo, não dá para negar que há coisas novas, muito desafiadoras para a gente. Acho que a gente acaba caindo no risco de adotar duas atitudes comuns diante do novo: uma é a gente tomar uma atitude defensiva, isto é, reduzir o novo ao que já é conhecido; outra é tratar aquilo como patológico, como errado, ou como algo sombrio, que perdeu o novo, o criativo.

[Rosa] Uma experiência com meus estagiários, que, para mim, tem sido desafiadora. E uma aprendizagem. Eles são adultos, todos formados, mas são jovens. Eles funcionam de um jeito que me atordoa, mas tenho de funcionar do jeito deles. Eu costumo dizer que eles pensam e conversam em hiperlink. Estamos lá reunidos; a sala é pequenininha. Num dia em que está todo mundo, são 14 pessoas numa sala pequena. Um está numa máquina; outro, noutra; um está ao telefone; um está escrevendo... E a gente está em reunião. Eles falam coisas entre eles e todo mundo está acompanhando tudo. Eu saio, às vezes. Ultimamente, eu tenho procurado relaxar e me divertir, porque, no fim, o trabalho sai. Mas não é o mesmo jeito de pensar e de funcionar. É outro jeito. É muito próximo do jeito da moçadinha que escreve no messenger, faz lição de casa e ouve música.

[Arnaldo] As múltiplas personalidades, não é?

[Rosa] É! Há um monte de canais.

[João] Pensando, aqui, eu acho que a gente vai longe demais em direção a uma espécie de encanto. São coisas muito novas, mas na vida de um ser humano muito antigo. Pelo menos é assim que vejo. O ser humano não mudou tanto, sabe? Uma pessoa que eu atendo está perdida agora. Ela entrou no escritório e viu que o marido visita um site em que ele vê uma mulher que fica nua e tal. Para ela, isso é uma traição. Ele está totalmente envolvido. De madrugada, ele vai até lá. Ele já conhece essa pessoa; de certa forma, ele já tem um vínculo com ela. Ele até paga. Acho que ele paga no final do mês, não sei se é assim. Ela se despe, ele fica vendo e tal...

[Rosa] Faz um strip particular.

[Participante] Tem um monte de gente on-line...

[João] Mas ele tem um vínculo, não é? Ela, não. Mas ele tem um vínculo virtual.

[Participante] Ela deve estar conectada com gente do mundo inteiro.

[João] Eu não sei exatamente, em detalhes. O que eu acho interessante é que é visto como uma traição. E isso pode ser visto sempre como certa traição, quer dizer, ele não gosta tanto, ele está ligado numa outra pessoa. Então a tecnologia é muito nova, mas a alma humana é muito velha, não é? E é esse o conflito que eu acho muito interessante, porque às vezes a gente se joga no novo e se esquece da alma velha que a gente carrega.

[Alberto] Quero dar um palpite. É que fiquei apreensivo com a fala do João, com a fala do Arnaldo e com a sua fala, Rosa. Dois velhos fatos: um que a gente pode chamar genericamente de “a verdade”, e outro que a gente pode chamar genericamente de “a mentira”, cada um deles contendo luz e sombra, uma vez que um não é necessariamente só bom e o outro não é necessariamente só ruim. Esses fatos assumiram roupagens novas nos nossos dias: a possibilidade de eu constituir uma realidade que “não é” e dar a ela o status de verdadeira é muito grande. Eu me torno quem eu quero. É, isto sim, a velha história de “agora eu era o herói e meu cavalo só falava inglês”. Nada mudou, não é? Ao mesmo tempo e por outro lado, está descortinada a sombra da humanidade, ou o oculto da humanidade. Outro dia entra em minha sala de atendimento uma cliente, vira-se pra mim e diz: “Sua primeira ex-mulher se chama fulana de tal, é hoje casada com beltrano de tal; na semana passada esteve em tal lugar fazendo compras de tal jeito. Sua segunda ex-esposa se chama não sei o quê. Hoje à tarde, inclusive, enquanto estamos aqui, ela está num chá, com fulana, beltrana e sicrana fazendo não sei o quê.

[Renato] Como que ele descobriu tudo isso? Pela internet? Pesquisou?

[Alberto] Sim. Sim. Sim.

[Renata] Que coisa persecutória! Que medo.

[Arnaldo] Como pode? Que disposição, não?

[Alberto] Sim. Aí eu tive a curiosidade de me procurar na internet.

[Rita] Você se achou?

[Alberto] Meu, eu sou um cara onipresente neste mundo. É uma coisa impressionante! Eu estou em todos os lugares. Eu e os meus. Daí eu fui fazer o que teria sido o percurso dela. De fato, eu tenho como saber o que a primeira ex-esposa está fazendo, a segunda e a próxima.

[Vanda] A primeira próxima, a segunda próxima...

[Alberto] Eu não fui tão longe no exercício!

[Participante, para o grupo] Mas como ele descobriu as atividades dela?

[Rita] O Orkut.

[Alberto] O Orkut favorece isso. Deixem-me voltar um pouquinho para trás. O que eu queria dizer com tudo isso é que eu posso me colocar no mundo através de uma identidade forjada. Ao mesmo tempo, as verdades, ou o mais recôndito da minha verdade oficial...

[Rita] Está exposto.

[Arnaldo] É!... Jung já dizia que a persona não se revela no escuro.

[Alberto] Sim. Exatamente. Essa polaridade persona/sombra – ou, então, a mais relevante delas, persona/anima – está ali colocada de um jeito muito flagrante, exigindo de nós uma reflexão a respeito de novos conceitos de pudor, novos conceitos de privacidade, novos conceitos de ética no modo de estar no mundo, nas relações. São velhos temas, mas eles estão sendo...

[Renato] Re-atualizados.

[Rosa] E a necessidade, a preocupação de quem atende crianças em orientá-los. Eles têm a facilidade e a habilidade de aprender a lidar com o instrumental, mas ainda não têm a maturidade intelectual para se auto-proteger, uma vez que não têm ainda a maturidade emocional correspondente. Existem os trabalhos de uma ONG chamada Safernet (http://www.safernet.org.br), que tem cartilhas para uso dos educadores, dos pais e das próprias crianças, quer dizer, aprender a preservar a privacidade, a intimidade, coisas básicas. Posso cuidar para não cair na sedução de que tudo é maravilhoso e aprender a usar para poder ensinar a usar. Mas acho que, do ponto de vista conceitual, tudo isso também é fascinante, não é?

[Alberto] Sim, até porque me parece que a gente não vai poder aplicar a este novo estado de coisas os velhos critérios que definiam o significado de privacidade.

[Participante] Mas é que se criam novos. Vai-se criando na hora.

[Rosa] Mas é inoperante, totalmente inoperante. Não funciona, não resolve.

[Vanda] Estava pensando. Eu fiquei surpresa de pensar nos fakes. Nunca tinha pensado nessa coisa de você inventar um personagem. Você mente falando a verdade. Ou você está falando a verdade mentindo.

[Rosa] Você brinca que é outra pessoa junto com outras pessoas; eles formam famílias, grupos.

[Vanda] Mas, então, eles inventam. Eu estou mentindo, mas, enquanto minto, eu estou falando a verdade. O que é a verdade quando você diz “eu minto”? É um paradoxo, quer dizer, é síntese do paradoxo.

[Rita] É um mentiroso verdadeiro.

[Célia] E essa é a linguagem da esquizofrenia, porque é a linguagem ambivalente.

[Vanda] Não. Eu minto, mas a situação contém as duas coisas. Eu acho isso importante. Eu minto, mas eu estou dizendo a verdade.

[Paola] Gente, mas isso é teatro. A arte faz isso.

[Vanda] Eu acho super interessante pensar assim, uma linguagem que está sendo atualizada nos relacionamentos.

[Paola] Lógico! E é uma linguagem perdida potencialmente. No teatro se faz isso. Quem é o poeta?

[Vanda] Mas isso é que é importante.

[Célia] Mas pode virar um jogo.

[Vanda] Mas, para os relacionamentos... Isso sai do teatro e está na vida. Eu estou surpresa. Nunca tinha pensado nisso.

[João] E se a vida ficar nisso, o que você está falando, de repente? Se a vida ficar um virtual, do que a gente está falando? A gente está falando da esquizofrenia. Ou isso é passado e temos de pensar em outra coisa.

[Vanda] É isso que estamos falando.

[João] Pois é!

[Célia] Eu queria falar. Eu sei que não é para falar só de patologia, mas eu gostei muito do que o Alberto colocou e quero tomar emprestadas suas palavras. Zygmund Bauman, que eu acho uma beleza, fala do “Amor Líqüido” na atualidade. E a dificuldade de acreditar que as coisas duráveis possam ser boas. Então, quando você falou da nossa alma velha, é como se tudo aquilo que fosse durável, antigo, não fosse mais valorizado na modernidade, já que tudo pode ser descartável. A gente joga no lixo os computadores velhos. Hoje em dia, quando se quebra uma peça de computador, o dono o joga fora, assim como se joga fora qualquer coisa. Algo que não está agradando você deleta, da mesma forma como elimina uma mensagem; deletam-se as relações. Deletam-se as coisas que não são mais agradáveis ou úteis. Nos Estados Unidos, há muito tempo se jogam coisas fora. Qualquer coisinha que não está boa no supermercado – quebrou-se uma parte da embalagem – joga-se no lixo. Há pessoas que vivem de comida fresca jogada fora no supermercado. Isso é um símbolo, não é? Quanta coisa boa a gente joga fora e descarta. Para mim, o que isso representa é que nós estamos perdendo alguns valores primordiais, perdendo contato com alguns valores primordiais. Então, as falas de Alberto e de João me tocam muito. E, nesse sentido, a gente está falando de patologia. Não é ruim falar de patologia nesse sentido, mas como resgate de valores primordiais. A gente precisa prestar atenção, garantir que as crianças sejam cuidadas nesse sentido. Não estamos impedindo as crianças de criar novos símbolos ou de humanizar novos arquétipos. Não é isso. Trata-se de preservar algumas coisas que são humanas e importantes. Não se pode passar por cima delas. O Bauman coloca exatamente dessa maneira, como se nós tivéssemos criado certa insensibilidade, certo congelamento, frente à impossibilidade de sermos acolhidos em relação a algumas necessidades humanas. É nesse sentido que eu queria que a gente pensasse. A tecnologia é uma ferramenta que veicula essa possibilidade de congelamento, então eu acho que é papel do psicólogo pensar sobre isso também.

[Renata] Sua colocação me remete a questões que eu venho presenciando em minha prática clínica e que trazem a necessidade de dar um sentido e exercer um olhar novo, no momento em que coisas novas aparecem. Por exemplo, quando você fala do Amor Líqüido, do Bauman, eu percebo como é difícil a gente dar um sentido novo que consiga unir uma necessidade antiga dentro de uma realidade nova, naquele momento em que as questões aparecem. Um exemplo é uma cliente que foi pedida em casamento pelo MSN. Ela me perguntou: “Mas vale”? (Risos)

[Célia] Ela conhecia o cara?

[Renata] Conhecia, mas eles moravam em cidades diferentes e, por isso, grande parte do diálogo e da relação deles era pelo MSN. Eram horas de conversa! Num determinado dia, ele a pediu em casamento. “Mas será que isso é válido”? A paciente me perguntou novamente. Respondi: “Bem, pergunte a ele”. Ela falou com o namorado e ele confirmou. Mesmo assim, ela ficou com uma dúvida. Afinal, ela queria ser pedida em casamento...

[Célia] Olhos nos olhos.

[Renata] Sim, pessoalmente. Só que o noivo era uma pessoa muito tímida e não conseguia se colocar na vida real – ou, melhor dizendo, tinha dificuldade para se posicionar pessoalmente, uma vez que usava muito o MSN.

[Célia] Bem, mas aí surge uma questão: se ele não consegue nem pedi-la em casamento pessoalmente, ele vai conseguir as outras coisas?

[Rita] Por que não? (O grupo se mobiliza e várias pessoas querem comentar o episódio)

[Renata] Vejam como é polêmico! Eles até se encontravam e mantinham um relacionamento, mas aquela situação de pedi-la em casamento demandava dele uma coragem que ele não tinha. Nós agora estamos falando sobre isso e podemos refletir em conjunto, o que é ótimo. Agora, a situação é muito diferente quando a questão aparece no consultório e me desafia a pensar algo totalmente novo e inesperado naquele espaço de 50 minutos. Vejo que exige um esforço de nós, psicólogos.

[Célia] Eu entendo. E acho que nossos tabus e preconceitos nos atrapalham nesses momentos. Por exemplo, “Eu só caso de branco, com buquê”. Essa é uma imagem pré-concebida, mas que pode não ser o mais importante, como o que poderia estar em jogo no caso da sua paciente, algo como “Eu preciso ter confiança nesse homem”.

[Renata] Você tem razão. É como se a paciente se perguntasse: “Será que posso acreditar numa coisa que não é real? Será que eu vou achar que sou noiva de um...”

[Roseli] Por outro lado, podemos pensar que o MSN foi um instrumento bom para ele, já que ele conseguiu fazer algo que não poderia, se fosse de outra forma. Também é possível que o uso do MSN tenha acobertado a sua covardia de uma maneira defensiva, livrando-o de se confrontar com suas dificuldades, entende? São duas coisas.

[Renata] Estou de acordo contigo. Também acho que podem ser as duas coisas, tanto a que possibilita, quanto a que acoberta.

[Célia] Isso nos permite concluir que talvez a dificuldade e o principal desafio do nosso trabalho não seja a ferramenta internet, já que nós estamos falando aqui dos símbolos que são veiculados dentro dessa ferramenta.

[Renata] Nesse trabalho surgem coisas inesperadas. Ainda no caso da minha paciente, eu me perguntava: e se fosse por carta? Tudo bem? Talvez fosse diferente, afinal estaria escrito de forma palpável e concreta.

[Rita] E hoje em dia até as conversas pelo MSN podem ser gravadas.

[Rosa] Falando nisso, vocês sabem que já existe até prova jurídica com base em e-mail?

[Vanda] É mesmo. Eu mesma atendi um caso de uma pessoa que perdeu a guarda dos filhos por ter sido acusada de abuso de cocaína e crack. Ela tinha colocado no Orkut um convite que dizia: “Galera, teremos uma festa só no ‘tubinho’”, referindo-se à presença de cocaína no evento.

[João] Neste final de semana tivemos o caso desastroso do rapaz que seqüestrou a ex-namorada porque viu no Orkut que ela tinha outro namorado. O desfecho foi fruto de uma atuação.

[Rita] Nesse caso, pergunto se ele não faria a mesma coisa sem o Orkut. Como se só bastasse ele descobrir alguma coisa sobre ela. Ele era um louco! Até que ponto ele não iria achar uma prova para chegar nela de qualquer jeito?

[Rosa] Será que essa nossa conversa tem um fim?

[Célia] Pelo jeito, as pessoas não querem ir embora.

[Rosa] Não digo “um fim”, mas uma síntese ou um encaminhamento, talvez! Eu acho que o ideal é que tudo isso continue rodando nas nossas cabeças e nos inquietando.

[Rita] Concordo com você. Acho que não é possível fechar um tema tão instigante, com essa conversa tão prazerosa. É ótimo que tenhamos feito este evento da forma que fizemos, usando um formato de diálogo muito parecido com a nossa proposta do Fórum Junguiano. Nosso encontro foi gravado e filmado e a idéia é produzirmos um material para ser colocado no site. A partir disso, nós podemos continuar este debate através do site, que oferece recursos para as pessoas se comunicarem, trocarem e-mails, enfim, fazerem contato. É uma forma de não perdermos a preciosidade que tivemos aqui, ao mesmo tempo em que podemos ampliar o diálogo com mais pessoas.

[Célia] É isso. Podemos encaminhar essa idéia. Rosa também pode nos ajudar. Já tem isso estruturado, tem uma equipe. Talvez a gente possa transformar o que a gente discutiu hoje em subtemas, com outros participantes da sua equipe.

[Rosa] Pode ser. Em nossa equipe cada um tem sua preferência temática e podemos verificar como eles querem participar. Como eu disse, desde o início eu sempre aprendo muito mais com eles do que ensino para eles. Eu insisto que pode dar um pouquinho de trabalho no começo, até as pessoas aprenderem a usar os recursos do próprio site, do fórum. No início a gente perde tempo e se irrita à toa, mas, quando aprendemos a aproveitar, aquele tipo de espaço é muito, muito bom. São muitos recursos para trocar idéias, construir textos etc. Uma coisa importante é podermos usar esse tipo de ferramenta de forma criativa, o que acaba por dar um caráter lúdico e tornar a atividade prazerosa.

[Célia] Rosa, nós agradecemos muitíssimo a você por ter compartilhado conosco essa experiência de anos no núcleo.

[Rosa] Eu é que agradeço a oportunidade de trocar essas coisas. E eu fico contente que mais pessoas comecem a se interessar por esse tema de modo que não fique restrito só aos recém-formados e aos meus parceiros de esquisitices.

[Arnaldo] Eu quero agradecer muito a presença da Rosa e agradecer a Célia pela função que ela teve de coordenar essa discussão e de nos provocar com perguntas. Gostaria também de falar um pouco sobre a ferramenta do Fórum Junguiano, um site que tem a proposta de abrir um espaço na web para troca e conversa entre os integrantes da comunidade junguiana do Brasil. O site tem divulgado iniciativas no campo junguiano no Brasil e tem gerado um movimento interessante. Temos tido um número de acessos razoável, perto de 2 mil/mês, e temos uma comunidade numerosa cadastrada no site e no Fórum. Eu quero aproveitar e convidar a todos para participar e fazer uso do espaço do Fórum Junguiano e me coloco desde já à disposição para o que for preciso, no sentido de facilitar o uso do site por vocês. Para finalizar, como a Célia e a Rita disseram, nós pretendemos levar o material, fruto deste encontro, para o site. E queremos que vocês dêem continuidade e complementem esse material.

[Rosa] É importante ressaltar que o Fórum Junguiano é multidisciplinar.

[Arnaldo] Bem lembrado. Ah, eu também gostaria de agradecer a presença de vocês aqui neste sabadão, que começou chuvoso e foi-se aquecendo graças à nossa conversa.

[Alberto] Que maravilha ver o trabalho que a Rosa nos apresentou como síntese, como coagulatio. Imagino o trabalho que deu para chegar até aqui, inaugurar e desbravar o tema, que ainda é tão embrionário para muitos de nós. Por tudo isso sinto-me extremamente grato a você.

[Rosa] Imagine! Espero que estimule.

[Participantes] Sim, já estimulou.

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