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Alcoolismo e dependência

 
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MensagemEnviada: Ter Fev 26, 2008 14:25    Assunto: Alcoolismo e dependência Responder com Citação

ALCOOLISMO e DEPENDÊNCIA

Existem muitas maneiras de olhar para o fenômeno do alcoolismo. O ponto de vista médico, psiquiátrico, psicológico, econômico, social, de saúde social e muitos outros. Quero abordar aqui, neste breve escrito, o ponto de vista comportamental da dependência de qualquer objeto, seja substância química ou não, e mais especificamente do álcool.

Fala-se muito do alcoolismo como uma doença, inclusive hereditária e genética, mas não podemos deixar de ressaltar que o alcoolismo como doença só passa a ser assim considerado quando há a dependência. Até aí a prática de beber álcool não é considerada doença e é vista pelos médicos e certas áreas da ciência, dentro de certa medida ou dose, como uma prática saudável para o organismo.

Da “doença” dependência não se fala. Fala-se da dependência “química” como se a questão estivesse na química e não na relação emocional de dependência, embora possamos ficar dependentes de jogo de cartas, de corrida de cavalo, de novelas ou qualquer outro objeto com química ou não que elejamos para representar, re-apresentar, uma situação de dependência emocional familiar.

Muito embora quando se chega ao estágio de depender do álcool, o acúmulo de substancias químicas depositadas na corrente sanguínea seja bastante alto e faça com que o adito necessite de mais e cada vez mais da droga, a dependência só se instala depois de um bom tempo de uso, onde o sujeito aprende o hábito de beber. O tabaco e o álcool talvez sejam as drogas mais deletérias à saúde por essa característica de deposição no organismo e paradoxalmente são as drogas consideradas lícitas e aceitas pela sociedade. É um ato de sociabilidade se encontrar para beber e fumar.

Do meu ponto de vista o comportamento do adito em drogas, no caso o álcool, é sempre o sintoma de uma relação de dependência familiar.

A Palavra dependência vem do radical “pender”, depender. Para que se dependure é preciso que haja um gancho, um suporte. Alguém que o suporte, que lhe dê suporte. O Alcoólatra é dependente da família, assim como a família também é dependente dele, numa via de mão dupla. Como paciente identificado, bode expiatório, ele pode com seu problema encobrir muitos outros problemas de relacionamento entre os familiares, como por exemplo, disputa de poder entre a linhagem materna e paterna na orientação da família, a depressão de um ente parental ou até mesmo ser um elemento agregador da família em torno de seu problema. Daí a reincidência de recaídas incompreensíveis, muitas vezes promovidas pela própria família, que não suporta seus problemas, mas que é capaz de suportar o alcoólatra, como mártires numa missão até sublime.

A dependência aqui é compreendida como o estado de relação em que a criança necessita de um adulto para cuidar de sua saúde, higiene e preservação. Nós seres humanos somos ao nascer, totalmente dependentes dos cuidados de um adulto e é esse cuidar de si mesmos que nós ensinamos aos nossos filhos no processo educativo de se tornar adulto e independente, um projeto auto sustentável capaz de cuidar de outras crianças, na constituição de suas próprias famílias.

A compreensão do alcoolismo como doença hereditária ou genética, muito aceita atualmente, exime o alcoólatra da responsabilidade de cuidar de si mesmo ou de sua doença, de ser responsável pelo ato de beber. É como se a bebida viesse a ele por conta própria e entrasse em seu corpo apesar de seu desejo de não beber, pois a responsabilidade fica colocada na doença como coisa independente ou na idéia de vício. Como se o vício o tivesse e não ele que tivesse o vício. Se sei que passo mal quando como feijão, para que como? E se como, que eu seja responsável pelas conseqüências de minha escolha.

Por ser uma droga aceita pela sociedade suas conseqüências vão aparecer tardiamente e a prática começar precocemente, geralmente na adolescência, hoje em dia cada vez mais cedo, como ritual de passagem da vida infantil para a vida adulta, como prática de socialização, inclusão grupal / coletiva, meio de desinibição e potência, paradoxalmente mantendo o sujeito na condição de dependência infantil. O alcoólatra gosta de ficar “mamado”, “naquelas águas”.

Ainda do meu ponto de vista, é a tentativa de resolver problemas emocionais, como a dor psíquica da solidão, separação, angústia ou ansiedade, por meio de uma dissolução do ego (eu) numa “solução aquosa = liquida”, reeditando a emoção de uma nostalgia do estado primevo intra-uterino, onde tudo, desde fome, frio, medo... era resolvido por um ente maior a quem ele estava totalmente ligado, dependente: A Mãe.

É a reedição de um estado de total dependência, atualizada na relação de dependência com o álcool como droga de eleição. O alcoólatra sempre precisa de alguém que cuide dele: esposa, pais, filhos, médicos, terapeutas ou a própria sociedade através de seus sistemas de saúde, pois o alcoólatra apresenta muitos problemas colaterais, como úlceras, ataques cardíacos, quebra de membros e outros que os hospitais públicos têm que tratar.

Como diz um amigo meu “Quem bebe, tem problemas de bebe”.

Tendo nascido, o ser humano, obtém condições para sua sobrevivência a partir de um esforço próprio como o choro advindo de uma dor de fome, frio ou solidão, separação. É preciso “botar a boca no mundo”, por conta própria para garantir a sobrevivência.

Tendo nascido, o ser humano, experimenta a dor da luz, do som, do tato, da fome, da separação, enfim da individuação, separação da mãe como entidade provedora.

Talvez seja essa a dor que o alcoólatra procura dissolver em álcool, a solutio, fazendo um retorno à “Prima Matéria”.

Um incesto urobórico com a mãe = Um oceano de prazer e ausência de dor, numa relação de Dependência.

Haylton Farias
Fev/2008


Esta é uma hipótese baseada na minha observação, no tratamento de alcoólatras e outros adictos na clinica de Terapia Familiar do NEPAD / UERJ – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao uso de Drogas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, durante o período de 2000/2006. Também pela experiência clinica particular ao longo de 22 anos de atividade.
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