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As deusas e a mulher: uma visão politeísta da menopausa.
Diniz, Rita

AS DEUSAS E A MULHER: UMA VISÃO POLITEÍSTA
DA MENOPAUSA (1)

Rita Diniz (2)

Fui convidada a falar da menopausa no referencial junguiano e, para tanto, vou discorrer aqui sobre algumas ideias que embasam essa abordagem e, em seguida, pretendo expor as minhas reflexões que, além desses preceitos, englobam a minha própria experiência como mulher pós-menopausada.

Na visão junguiana de homem, a psique possui duas atividades primordiais: criar imagens típicas e fabricar enredos. À possibilidade de criar imagens típicas Jung emprestou o nome de arquétipo e à imagem em si de imagem arquetípica. Um exemplo de imagem arquetípica: na Europa há uma igreja com imagens de Nossa Senhora elaboradas em todos os países do mundo: cada uma guarda a peculiaridade de seu país de origem, mas algumas características as agrupam no mesmo arquétipo, o da Virgem Maria. Um exemplo de enredo: o herói com a tarefa de matar o monstro para salvar ou merecer a donzela. As mitologias de todos os povos e de todas as épocas são expressões dessas imagens arquetípicas enredadas em suas tramas.

Os arquétipos são os determinantes coletivos da percepção e da experiência psíquica, são formas sem conteúdo e a imagem arquetípica é a expressão dessas forças ativas.

Numa visão mais afeita ao Romantismo do que ao materialismo científico e em contato com seus pacientes esquizofrênicos, Jung redescobriu o inconsciente coletivo outrora expresso nos mitos.

A arché, numa visão aristotélica, é a expressão de uma potência que não se esgota, um princípio que teria uma natureza ilimitada devido à sua capacidade de gerar sempre, um princípio ordenador.

Segundo Joseph Campbell, “A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos. A partir desse solo comum, constitui-se o que Jung chama de arquétipos, que são as ideias em comum dos mitos.”(3) E “É necessário um treinamento para ajudá-lo a abrir os ouvidos, para que você possa começar a ouvir metaforicamente em vez de literalmente. Tanto Freud quanto Jung perceberam que o mito se enraiza no inconsciente.”(4) E de acordo com Mircea Eliade, “... o mito se torna o modelo exemplar de todas as atividades humanas significativas.” (5) “... o mito, portanto, é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva à qual se recorre incessantemente.” (6)

A visão arquetípica, através dos mitos, organiza as experiências oferecendo um roteiro por onde a psique se move desde os primórdios, ao mesmo tempo que contempla a pluralidade da realidade psicológica que é imensamente complicada e multiforme diante das experiências típicas.

No pensar científico a unidade suplanta a dualidade, a nivelação unitária que facilita a compreensão e explicação da realidade predomina.

Num mundo predominantemente dessacralizado e desmitificado que arrasta a existência ao vazio, a recorrência a um imaginário mítico, arquetípico, para as ocorrências do climatério pode dar um sentido mais abrangente à vivência das mulheres climatéricas.

No intuito de contemplar duas necessidades básicas de todo ser humano, a de se identificar com seus pares e a de ser único, vou emprestar da mitologia grega, pela qual sinto mais afinidade e simpatia, imagens arquetípicas que carregam em si algumas peculiaridades do universo feminino: Ártemis, Atenas, Héstia, Hera, Demeter, Perséfone, Afrodite e Psiquê.

Vamos conhecê-las um pouco.

Ártemis: filha de Zeus e Leto, irmã gêmea de Apolo, nasce antes do irmão e ajuda a mãe no parto, tornando-se, por isso, protetora dos nascimentos; mantém-se virgem e é ligada à natureza, aos animais e à mulher, de quem é incansável defensora; é a deusa caçadora, arqueira infalível e protetora das Amazonas.

Atenas: nasce da cabeça de Zeus, que havia engolido Métis grávida; nasce adulta e pronta para as batalhas, sendo excelente estrategista. Deusa da justiça, da inteligência, da razão e do espírito criativo ligado às artes, é boa artesã; é essencialmente ligada aos homens e possui o espírito da ação; seu lugar é a cidade; um de seus símbolos é a coruja, que significa a reflexão que domina as trevas.

Héstia: irmã mais velha de Zeus, sempre se manteve imóvel no Olimpo, como deusa da lareira; permaneceu mais como um princípio abstrato do que como divindade pessoal, o que explica a falta de representações por imagem, pois o fogo era suficiente para simbolizá-la; é uma deusa introspectiva e sábia e seu lugar é o centro da casa.

Hera: irmã e legítima esposa de Zeus, é a protetora das esposas e do amor legítimo; diante das infidelidades do marido torna-se ciumenta, vingativa e violenta, principalmente contra suas amantes e seus filhos, pois preservar o casamento é primordial

Deméter: é irmã de Zeus e com ele tem sua única filha, Perséfone. Na partilha dos deuses a ela é destinado o âmbito da terra cultivada, sendo a deusa do trigo; é a grande deusa mãe e a mais nutridora de todas as deusas; sofre uma depressão terrível quando sua filha é raptada por Hades.

Perséfone: filha de Zeus e Deméter, é profundamente ligada à mãe e gosta de brincar nos campos e de colher flores; é raptada por Hades, seu tio, deus do mundo subterrâneo dos mortos; antes do rapto é a jovem, a filha, e depois do rapto torna-se a rainha do mundo dos mortos e grande iniciadora nos mistérios da alma. Como passa um terço do ano no Hades e dois terços no Olimpo, encurta a distância entre os dois reinos e pode intervir no destino dos homens; está ligada à renovação da vida após a morte, num sentido simbólico.

Afrodite: tem dois nascimentos possíveis: do esperma de Urano que cai no mar quando este é castrado pelo seu filho Cronos ou como filha de Zeus e Dione; é a deusa da beleza e do amor; é ligada às forças irrefreáveis da fecundidade, não pelos seus frutos, mas pelo desejo ardente que elas ateiam nas entranhas de todas as criaturas; o amor de Afrodite não se limita ao romântico e sexual, engloba a conexão de alma, a amizade profunda, a comunicação e a compreensão empática; há nela um forte desejo de conhecer, de se comunicar e entrar em comunhão com o outro. Os processos criativos estão sob sua influência; tem muitos relacionamentos e diversos filhos, inclusive Eros, o deus do amor.

Psiquê: inicialmente mortal, filha de um rei e uma rainha, e depois tornada imortal como esposa de Eros, com quem tem uma filha chamada Volúpia; sua beleza afronta a deusa Afrodite, que manda seu filho Eros para castigá-la, mas ao esbarrar em sua própria flecha ele se apaixona e a leva para viver num palácio escondido, onde a visita todas as noites, sem que ela possa saber quem ele realmente é. Depois de um estratagema, ao descobrir com quem se deitava todas as noites, ela também esbarra inadvertidamente numa das flechas e se apaixona, mas ele se vai. Depois de submeter-se às tarefas impostas por Afrodite pôde tê-lo de volta, agora numa união consciente e abençoada pelos deuses. Como última tarefa tem que descer ao Hades e trazer o pote de beleza de Perséfone.

Cada uma de nós tem todas essas representações do feminino em nossa psique, mas haveria uma predominância de uma ou mais deusas em cada mulher particular. Muito provavelmente há uma pressão dos pais, do meio, da cultura, mas quando ela mesma consegue decidir, provavelmente estará fazendo uma escolha mais autêntica, baseada na predominância de uma determinada deusa dentro de si. A cada novo estágio de vida, pode ocorrer mudança na predominância de uma ou outra deusa e em alguns casos é desejável que aconteça.

Segundo Campbell, existe uma função pedagógica do mito com que as pessoas deveriam tentar se relacionar, a de como um mito pode ensinar como viver uma vida humana sob qualquer circunstância. Segundo ele, a mitologia tem muito a ver com os estágios da vida e cada indivíduo deve encontrar um aspecto do mito que se relacione com sua própria vida.

A menopausa é um fenômeno natural de todo organismo feminino e, portanto, tem suas particularidades e sua universalidade. As alterações físico-psíquicas são mais ou menos comuns e já estão bastante catalogadas e informadas. O que eu gostaria de propor aqui é um pano de fundo mítico para a menopausa e, mais especificamente, para o climatério e suas interferências na psique de toda mulher; gostaria de emprestar um lugar de reflexão sobre as peculiaridades que podem referendar e oferecer um campo de normalidade para as diferenças sutis vividas por cada mulher em particular.

Por favor, escutem metaforicamente quando eu falar “mulher Atenas”, “mulher Afrodite”. Uma mulher Ártemis, que adora viagens ecológicas e esportes e que tem vida ativa, pode achar oportuna a menopausa e pode sentir menos os efeitos colaterais, já que a reprodução nunca foi desejável. A menopausa pode também não ser lamentada por uma mulher Atenas, mas uma certa depressão e falhas de memória podem ameaçar seu brilhantismo intelectual e ser sentidas como derrota. Uma mulher Héstia pode passar calmamente e sem grandes alardes pelo período do climatério, pode ajudar outras mulheres em suas aflições. Uma mulher Hera poderá não lamentar o término do período reprodutivo, mas um certo rebaixamento na autoimagem e na autoestima femininas, poderá aumentar sua preocupação em como manter o marido e pode torná-la mais ciumenta do que nunca. Uma mulher Deméter, mesmo tendo tido os filhos que quis, é a que mais deverá sofrer com a definitiva impossibilidade de ser mãe biológica, tenderá a deprimir-se mais intensamente como se estivesse diante do rapto de sua filha. Uma mulher Perséfone poderá ver-se profundamente ameaçada em sua jovialidade, principalmente se estiver mais fixada em seu aspecto filha. Estar livre das menstruações poderá ser um verdadeiro grito de independência para uma mulher Afrodite para viver mais intensa e despreocupadamente sua vida sexual, mas um rebaixamento na libido poderá ter efeito devastador em sua autoimagem e autoestima, ela pode não se reconhecer.

A idéia junguiana de individuação é de que cada pessoa possa ser o melhor que ela possa ser. Viver a menopausa da melhor maneira que uma mulher possa viver é estar conectada tanto no coletivo quanto no particular.

Todo rito iniciático, e a menopausa como um deles, implica uma vivência de rapto e morte, uma descida ao Hades, como outrora aconteceu com Perséfone e, como ela, num primeiro momento esperneamos e deprimimos, mas como a mudança é tão inevitável quanto desejável em qualquer processo vital, logo temos que buscar nos amoldar e, mais do que isso, buscar um novo sentido para essa nova experiência e as diferentes configurações que ela nos apresenta.

Talvez tenhamos algo a aprender tanto com Perséfone como com Psiquê. Com Perséfone a descer de tempos em tempos ao mundo da alma, a nos aprofundar em nossas vivências, a valorizar menos os ganhos de ego e procurar mais alimentos para nossa alma. Com Psiquê, a buscar uma conexão mais consciente com Eros, a priorizar o que realmente nos apaixona, nos afeta, lembrando que pathos, raiz grega da palavra paixão, é o que afeta, pathos é igual afecção.

Como dizia Hanna Arendt a dor só pode ser vivida e transcendida quando dela podemos contar uma história ou transformá-la em história. O climatério não é patologia, mas implica dor e algum sofrimento para a maioria das mulheres; então, seguindo Arendt, no sentido de viver intensamente e transcender esse estágio da vida e dele sairmos fortalecidas, há que se contar muitas histórias, há que se reviver muitos mitos.


Notas:

1.Palestra proferida na Simpósio Internacional de Saúde Mental da Mulher Climatérica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), em 28 e 29 de novembro de 2003.

2.Psicóloga. Analista Junguiana pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA-SP), membro de International Association of Analytical Psychology (IAAP). Fundadora da Associação de Psicologia Analítica de Santos (ASPAS.

3.Campbell, Joseph. O Poder do Mito. 1990. Ed. Palas Athena, pág. 53.

4.Idem, pág. 61.

5.Eliade, Mircea. Mito e Realidade. 1972. Ed. Perspectiva, pág. 13.

6.Idem, pág. 23.

 

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